domingo, 26 de dezembro de 2010

Como desatar os nós criados pelos erros dos outros?

Mais um Natal para Letícia havia passado e ao mesmo tempo que sentia um alívio no peito, sentia também um vazio que não sabia explicar.
Talvez fosse toda a sua história indo e vindo em sua cabeça, a solidão, a falta de tempo ou o fato de não entender como tudo chegou até ali.
Ela pensava por horas e horas sem alcançar conclusão alguma.
Tantas pessoas já passaram por sua trajetória, tantas coisas já vividas, e, mesmo tão cedo, se desespera para que chegue logo ao final.
Letícia anda de um lado para o outro, com a vontade de sumir desesperadamente a faz por um momento parar. Senta. Olha ao seu redor. Neste momento começa a refletir todas as suas conquistas, o quanto foi forte, o quanto já lutou. Se debruça sobre a cama e chora. Chora por um longo tempo.
Pega seu telefone, percebe que com o tempo se tornou péssima em decorar números. Ri de si mesma. Vai até a agenda, escolhe um nome e liga. A pessoa que está no outro lado da ligação, num lugar extremamente barulhento, não lhe dá muita atenção e promete-lhe ligar no dia seguinte. A pessoa não percebe em seu tom de voz o intuito de encontrar apoio, ajuda, um ombro mesmo que distante.
Letícia desliga com um "tchau" em um tom tão baixo que saiu rouco de sua garganta acompanhado por um nó que a fez em seguida desabar novamente.
Pensou em tantas coisas ao mesmo tempo que não sabia mais o que fazer. Com tanta vida pela frente, sua unica vontade era apenas de cessar seu cansaço. Já tinha visto isso antes. Era familiar aquela sensação.
Como desatar os nós criados pelos erros dos outros? Toda aquela dor promovida pelos humanos que a cercaram durante anos. Era essa sua dúvida, com apenas a certeza de que jamais obteria a resposta. Sua vontade era de ter sido uma criança com uma história diferente, com uma vida diferente.
Letícia levanta.
Vai até a cozinha, mexe nas coisas como se estivesse procurando algo. Passa os dedos entre objetos cortantes.
Volta ao quarto.
Acende um cigarro e senta.
Não sabe mais distinguir se é forte ou fraca por não acabar de vez com aquele sofrimento.
Deita em sua cama, atenta agora apenas ao silêncio das paredes. Todos já estavam dormindo, era muito tarde.
Acorda no dia seguinte, se arruma às pressas e sai para mais um longo dia de trabalho.

Um comentário:

Robson Ribeiro disse...

Gostei, Mariana.

Sempregosto dos seus textos. Acho que você escreve bem e tem muita sensibilidade...

Beijo.